Fim das utopias?

Há quem diga que as utopias ruíram junto com o Muro de Berlim ou com o desmembramento da União Soviética. Nada mais ilusório, pois logo em seguida o presidente dos Estados Unidos naquela época, George Bush, anunciou uma “nova ordem mundial”, e um cientista social que trabalhava para o governo federal estadunidense, Francis Fukuyama, teorizou sobre o “fim da História” (com H maiúsculo). Além do colapso do Bloco Soviético, assistiu-se às reformas econômicas na China e à transição democrática na África do Sul e na América Latina em geral.

No que consistia a Nova Ordem Mundial de George Bush ? Era uma utopia: a democracia liberal e a “economia de mercado” triunfariam para sempre, em todo o mundo, sob a guarda da geopolítica unipolarizada pelos Estados Unidos, autoproclamados guardiães dessa utopia “democrática de mercado”. A suposta autorregulação do mercado capitalista e a democracia eleitoral garantiriam uma indefinida prosperidade econômica, liberdade individual e estabilidade política. E o poder militar dos EUA seriam seus eternos guardiães, agindo como xerifes do mundo, sob mandado de uma “comunidade internacional” baseada no consenso entre governos democráticos-capitalistas de diversos países.

E isso não é tudo. Em reação ao cosmopolitismo fachada (no fundo apenas a idealização de uma realidade desigual e violenta que era unilateralmente imposta mundo afora), surgiram reações locais, no entanto poderosas, apoiadas na crença na pureza originária de identidades particularistas e tradicionais, principalmente étnicas e religiosas. Propunham a defesa ou restauração dessa pureza tradicionalista imaginada, muitas vezes pela força das armas e da segregação. A pureza da identidade seria garantidoras de segurança, estabilidade e coesão das “comunidades” étnicas e religiosas. Trata-se, como as anteriores, de uma utopia.

A diferença é que as utopias socialistas, que são mais antigas que Marx, ao menos serviam de contraponto crítico aos custos humanos e injustiças sociais da modernização capitalista. O que temos agora, com os fundamentalismos de mercado e da identidade étnica ou religiosa, são utopias que parecem contribuir ativamente para produzir distopias, ou seja, para tornar o mundo mais desigual, mais violento, mais estúpido, e sob a chantagem de um falso dilema entre a “liberdade” individualista e a “segurança” religiosa ou etnicista.

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