Resposta aos adeptos do jargão do protagonismo

A recepção do texto anterior, O jargão do protagonismo, foi bastante polêmica. Mas creio que há duas leituras equivocadas. Uma delas é a que confirma tudo o que foi dito no texto, ou seja, aqueles que se limitam a acusar o texto de ter sido escrito por alguém que cometeu o pecado imperdoável de ter nascido homem. Esses detratores alegam que eu simplesmente não tinha o direito de escrever nada, e deveria ter me resignado a bater palma para os “protagonistas”. Houve, inclusive, quem tenha nascido na mesma malvada condição, mas ainda assim veio “roubar o protagonismo” dizendo que eu não deveria “roubar o protagonismo”.

É sintomático, por exemplo, que vários perfis e pages adeptos do jargão do protagonismo ataquem a todo momento “os brancos”, “os heteros”, “os homens”, etc, ao invés de criticarem o racismo, a homofobia e o machismo – como a esquerda fazia há poucos anos atrás. Não se trata exatamente de uma crítica, o que suporia justificativa argumentativa. É um ataque pessoal. Creio que não tenho necessidade de responder a tais golpes baixos.

Além disso, é um tiro no pé. Depois de passarmos anos explicando, a pessoas pouco familiarizadas com a questão, que o movimento negro não era contra os brancos, que o feminismo não era contra homens e os LGBTs não são contra os heteros, eis que aparecem “diferentões” afirmando que são contra sim (para a alegria dos demagogos da ultra-direita). O que garante a eles que não possa surgir como reação a essas provocações infantis um igualmente infantilizado “identitarismo reverso”, em defesa da identidade masculina-hetero-branca (e cristã)? Nada garante, porque já surgiu. É só verificar a votação da protofascista família Bolsonaro.

Outros mostraram dificuldade, ou má vontade quem sabe, na interpretação de texto. Em momento algum rechacei o feminismo, negritude, LGBTs, etc. Pelo contrário, afirmei e reafirmo que são causas importantes e justas, que devem ser incluídas em propostas mais universais. A crítica se dirige à promoção do subjetivismo, do individualismo e do punitivismo em nome dessas bandeiras. Mas de modo algum afirmo é uma prática de toda a militância feminista, negra ou LGBT, que acaba servindo de “boi de piranha”. Não é à toa que os neoconservadores tentam passar a impressão de que seriam todos os militantes feministas, negros ou LGBTs, ou até a esquerda como um todo, sejam adeptos desse tipo de ultra-subjetivismo.

Alguns, por exemplo, confundiram minha crítica à tentativa de um uso “politicamente correto” do direito penal do inimigo ou às práticas de “linchamentos virtuais do bem” com uma defesa de criminosos sexuais ou racistas. Uma acusação tão estapafúrdia quanto aquela, muito usada pelos conservadores e fascistas contra defensores de direitos humanos em geral, acusando-os de “defensores de bandidos”. Mais uma vez, é uma reação que confirma a afinidade eletiva do jargão do protagonismo com o neoconservadorismo.

O termo “pós-moderno” não foi usado uma única vez no texto, mas fui acusado de usá-lo. Não vejo problema em usar o termo “pós-moderno”, tendo em vista que teóricos importantes, como Slavoj Zizek, Terry Eagleton, Marshall Berman e Fredric Jameson e outros utilizaram (não sem uma alta dose de ironia). Só que eu não utilizei, e por uma razão simples: não acho que a “modernidade” tenha realmente acabado, para que alguém possa reivindicar uma “pós-modernidade” à sério, e hoje em dia é raro encontrar alguém se declare “pós-moderno”. Pelo contrário, tratam-se de ideias recicladas, com parentescos envergonhados com o romantismo e o liberalismo. Daí a cegueira desse umbiguismo epistemológico em relação à dimensão objetiva da vida social, cuja apreensão exige um esforço abrangente para superar a perspectiva subjetivista e individualista.

O subjetivismo metodológico do jargão do protagonismo, ignorando a articulação da opressão de gênero ou etnia com a exploração de classe, acha, por exemplo, que uma cantora milionária é uma “feminista negra” por ter vestido dançarinas de black panthers ao cantar uma canção com letra de ostentação em uma apresentação qualquer. O que faz tanto sentido quanto achar que uma loja de grife estão apoiando a Revolução Cubana ao venderem roupas com estampa do Chê Guevara.

Não faltaram os que insistiram no uso politicamente correto, “do bem”, do direito penal do inimigo, usando o argumento de que a punição é o que sobra quando o resto fracasso ou sequer foi tentada. Ora, isso apenas demonstra que o recrudescimento punitivo é um bom sintoma do fracasso de qualquer projeto político. Além disso, é subestimar os efeitos perversos da criminalização: o fato de que boa parte dos agentes da lei (policiais, promotores, juízes, etc) são na prática inimigos das bandeiras feministas, negras, LGBTs, etc, e, por outro lado, que os mais duramente atingidos pela violência policial e punitiva são justamente as camadas mais desprivilegiadas da sociedade.

Sendo assim, acaba-se caindo numa defesa do “valor simbólico” das leis penais, na vã esperança de que elas poderiam ter um efeito social apenas por serem parte da legislação oficial. E se um agente político, seja movimento, partido ou governo, não tem nada a oferecer além da expansão do sistema punitivo, pode se considerar um fracasso.

 

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