O juiz-xerife e sua operação

Desde o início a dita “operação Lava-Jato” era muito estranha: vazamentos seletivos constantes à imprensa de investigações sigilosas, e aparente condução por um juiz. Como se sabe, a divulgação de informações de investigações sigilosas é ilegal, e deveria ter sido respondida com punições dos responsáveis e sua substituição por funcionários mais honestos. E juízes não investigam nada, apenas fazem o controle dos procedimentos de investigação e o julgamento dos resultados.

Depois começou a ficar longa demais, com sucessivas “fases” se prolongando no infinito. Então apareceu que um dos investigadores era um tal “japonês” que tinha sido expulso da Polícia Federal há décadas, por corrupção e contrabando, e só se mantinha naquele órgão por algum tecnicismo jurídico. Finalmente, ficou um tanto óbvia a partidarização das investigações, quando o ex-presidente FHC e o senador Aécio Neves, ambos do PSDB, foram delatados por vários dos “delatores premiados”, pois o cartel que saqueava a Petrobras operava desde 1997 (no meio do governo FHC), senão antes disso.

O governo FHC teria recebido algo em torno de 100 milhões de dólares de propinas do cartel de empreiteiras – o que é bastante verossímil, tendo em vista que a principal empresa, a Odebrecht, é uma grande financiadoras eleitorais do PSDB. Nesse momento, o “juiz-xerife” simplesmente se deteve, ignorou as evidências, e preferiu se concentrar nos alvos seus inimigos partidários prediletos.

Aliás, essa mesma justiça criminal do Paraná é absolutamente leniente com os casos de corrupção e abuso de poder no quintal deles, como se pode perceber com pela absoluta conivência com o podre e algo sanguinário governo de Beto Richa (do PSDB, é claro). E as informações sobre o histórico partidário tucano da família de Sérgio Moro começaram a aparecer aqui e acolá.

E agora o juiz-xerife de Curitiba deflagra uma nova “fase” da operação para fazer um showzinho ridículo em retaliação à demissão do Zé Cardozo do cargo de ministro da justiça, do qual, sinceramente, ele demorou demais para sair. Para quem não se lembra, Zé Cardozo é o “ministro-xerife” que pôs os recursos da PF para perseguir anarquistas, culminando com processos injustos e criminosos que ainda infernizam a vida daqueles ativistas.

Além da queda de Zé Cardozo, essa sub-operação pode ser vista como reação à denúncia (e possível queda próxima) de Eduardo Cunha no STF e a abertura de investigação contra FHC por outros policiais federais. Ficou bastante patente a espetacularização caricaturesca da “fase 24” da Lava-Jato com o uso de trajes militares e armas de guerra (fuzis de assalto) pelos policiais da PF, como se Lula fosse resistir à ação policial com armas na mão (coisa que ele não fez nem durante a ditadura militar, quando se destacou como líder sindical moderado, sendo visto por alguns generais da ditadura até mesmo como um antídoto à radicalização trabalhista).

Também ficou algo óbvio que houve alguma articulação entre os grupos midiáticos (Folha, Abril e Globo, entre outros), o grupo do juiz-xerife e os políticos tucanos, pelo fato de o senador José Serra, o gestor da Privataria Tucana (que foi extraordinariamente positiva para os negócios da sua filha e sócios), ter apresentado durante a operação o seu projeto entreguista de desnacionalização do petróleo do pré-sal.

Quanto ao PT, fica óbvio que colheu o que plantou: quando Amaury Ribeiro Júnior publicou “A Privataria Tucana”, livro de 300 páginas, das quais 100 são documentos fotocopiados trazendo fortes evidências da propina nas privatizações do governo FHC, e deputados federais assinaram um pedido de abertura da CPI da Privataria, o presidente da Câmara na época (2012), o petista gaúcho Marco Maia, ignorou e não abriu a CPI.

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