O dia seguinte

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Muita gente está assustada com o processo de impeachment/golpe. Toda a argumentação jurídica que comprova, por A+B, que não há pressupostos suficientes para o impeachment, foi jogada no lixo pela gangue de Eduardo Cunha.

O fato desse processo ser comandado por Cunha, dono de várias contas secretas originadas da corrupção, é por si mesmo grotesco. Como um criminoso comprovado, que aguarda o julgamento, pode presidir tranquilamente a Câmara dos Deputados e ainda reduzir a nada a Constituição Federal? (com apoio da mídia dominante, tão corrupta quanto ele).

O que mais me preocupa não é exatamente o processo, por mais que este seja claramente um atropelamento de toda ordem constitucional pós-1988. É o dia seguinte. The day after[1]. O que vêm depois desse circo de mau gosto, pode ser um circo de horrores.

O que pode  vir?

Primeiramente, o sufocamento das investigações dos crimes dos políticos não petistas. E ao mesmo tempo uma onda de perseguições policiais, midiáticas, administrativas e judiciais que podem atingir sindicalistas, professores, jornalistas, advogados, ambientalistas, sacerdotes e artistas. Quem odeia a corrupção e ama a liberdade de expressão (como eu), tem boas razões para repudiar essa aventura golpista.

Depois dos interesses de quem liderou o golpe, vêm os interesses de quem apoiou. Esperem uma radicalização do que há de pior na política de Dilma, principalmente em 2015-2016. Isso porque muitos dos que apoiam o golpe agora são os mesmos que antes negociavam e pressionavam Lula e Dilma para atender os seus interesses, o que muitas vezes funcionava. Mas esses grupos não parecem mais satisfeitos com as políticas moderadas dos petistas, e buscam um controle direto do Executivo Federal para promover uma radicalização pela direita e no interesse da plutocracia[2]. Não espere menos que privatizações fraudulentas e desconstrução de direitos trabalhistas, além de legislações teocráticas e punitivistas das mais grotescas.

Lembremos que entre os apoiadores ocultos do golpe está o governo dos EUA, que não gostou da diplomacia independente de Lula e Dilma, que levou à criação dos BRICS e ao fortalecimento do Mercossul. E além disso, os empresários estadunidenses desejam muito se apossar de vez dos recursos naturais brasileiros.

Não se pode descartar que os próprios golpistas comecem uma disputa interna, para reduzir o número de saqueadores, para que, assim, cada um tenha uma parte maior no saque. Não ficaria muito surpreso se, logo após derrubar Dilma, Eduardo Cunha comande o impeachment de Termer – o que levaria o próprio Cunha a assumir a presidência. Teríamos o primeiro presidente golpista-mafioso-fundamentalista da nossa história!

 

***

  1. The day after é um filme estadunidense sobre uma guerra fictícia entre EUA e URSS. A narrativa fílmica se concentra, como sugere o título, no dia seguinte dos sobreviventes do bombardeio nuclear de grandes cidades.
  2. Pluto=riqueza; cracia=pode, governo. Assim, “plutocracia” é o poder da riqueza ou governo dos ricos. Uma realidade muito familiar para todos nós.

 

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