Sim, a direita está tentando um golpe de Estado e devemos combatê-lo

 

 

O que está em curso no país, nesse momento, é uma tentativa de golpe de Estado. Creio que existe argumentação jurídica suficiente para provar, sem sombra de dúvida, a qualquer pessoa de boa fé que não há qualquer fundamento legal [1] ou legitimidade ética na promoção de um golpe parlamentar por deputados envolvidos com a corrupção até o pescoço, contra uma Presidente eleita pelo povo e, até que se prove o contrário, não envolvida em qualquer dos graves casos de corrupção sob investigação federal.

Ressalte-se ainda que as investigações por corrupção que são desenvolvidas nos últimos anos só funcionam porque o governo federal não as sufocou, como faziam os governos anteriores.
Todo esse absurdo golpista se dá em nome de uma simples formalidade contábil que não provocou nenhuma perda aos cofres públicos, nem benefícios pessoais a Dilma. Contrariamente a Temer e Cunha, os chefes do golpismo, que foram diretamente acusados de corrupção por delatores, sendo que o presidente da Câmara comprovadamente mantém várias contas clandestinas em paraísos fiscais, com o intuito de esconder dinheiro de origem criminosa.

Temos, assim, uma situação absurda: criminosos processados pela justiça movem um processo ilegal contra uma presidente eleita e ilibada (e quem discorda, que apresente as provas de culpa da Dilma e refute as provas de culpa de Cunha), banalizando e abusando do impeachment, que é um instrumento extremo e exige a comprovação da participativa ativa da presidente em crimes de responsabilidade. Tudo para que os bandidos engravatados salvem a própria pele, com apoio oculto de uma certa potência estrangeira que está de olho no nosso petróleo e pôs muito dinheiro em certos movimentos de moleques mimados e reacionários [2].

Fora isso, o processo de impeachment em curso, além de ilegal, abusivo e antidemocrático, não trará nenhum benefício para os trabalhadores. Aliás, não trará qualquer benefício para quem não for muito rico e ligado à corja golpista. E representa uma radicalização de tudo o que há de pior no governo Dilma: o “ajuste fiscal” que sucateia serviços públicos e ameaça o emprego de milhões de trabalhadores; a negligência com os direitos sociais de “minorias” (povos originários, LGBTs, etc) em nome da “governabilidade”, etc.

Por outro lado, o golpe anuncia uma desconstrução do que há de defensável não só nos governos petistas (Bolsa-Família, Minha Casa, Comissão da Verdade, cotas nas universidades, etc), mas ainda do que há de mais benéfico da Era Vargas (CLT, previdência pública, Petrobrás) e da Constituição de 1988 (cujas garantias de direitos individuais e sociais são por demais amplas para enumerar aqui) [3]. Também a diplomacia de Lula e Dilma, que contribuiu para a ampliação do Mercosul, fundação da UNASUL, criação dos BRICS, estará seriamente ameaçada.

E para quem, como eu, odeia a corrupção, deixo claro que o golpe é uma “operação de abafamento”, que tem como objetivo imediato a extinções das investigações criminais que puseram corruptos como Eduardo Cunha e sua gangue em maus lençóis. É muito provável, ainda, que o golpe, caso consumado, sirva para desencadear uma onda de perseguições policiais, midiáticas, administrativas, judiciais (e clandestinas) contra qualquer pessoa que seja reconhecida como promotora de um discurso crítico ou milite por justiça social. Motivo para deixar qualquer democrata em estado de alerta.

Portanto, pensem muito bem antes de fazer o jogo de mafiosos como Michel Temer, Eduardo Cunha, José Serra e da família Marinho (dona da Globo), entre outros bandidos de colarinho branco; antes de aplaudir a deposição de uma presidente eleita por uma corja de criminosos; antes de se entusiasmar com o entreguismo pintado de verde-e-amarelo; antes de brigar com familiares e amigos para defender opiniões extremistas que só beneficiam fascistas e gangsters. Não escrevo nada disso em defesa de um governo com o qual eu não concordo na maioria das vezes [4]. Escrevo em defesa da Constituição e contra o golpismo que tantas tragédias já provocou ao povo brasileiro, especialmente aos mais humildes.

***

1. P.ex., esse video: https://www.youtube.com/watch?v=OvnNFQugnDM. Ou esse manifesto dos promotores pela legalidade: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/membros-do-mp-conclamam-parlamentares-a-votar-contra-o-impeachment.html.

2. Sobre o envolvimento dos Estados Unidos (seu governo e empresários) na campanha golpista, não é novidade nem na história do Brasil, nem no contexto atual de outros países (Egito, Líbia, Síria, Ucrânia, Paraguai, Honduras, Venezuela, etc). Sobre o financiamento externo dessa extrema-dieita, pode-se ler: http://apublica.org/2015/06/a-nova-roupa-da-direita/. Sobre os interesses geopolíticos dos EUA, pode-se ler: http://www.viomundo.com.br/denuncias/pepe-escobar-brasil-russia-e-china-sob-ataque-simultaneo.html

3. Sobre a agenda sócioeconômica perversa dos golpistas e fascistas, ver o texto de Requião [http://www.viomundo.com.br/denuncias/desmantelar-programa-habitacional-intervir-no-sus-e-privatizar-ensino-medio.html ou http://www.viomundo.com.br/politica/requiao-aos-governadores-e-deputados-todos-menos-os-ricos-e-a-midia-pagaremos-pelo-impeachment.html] e o de Beatriz Cerqueira [http://www.viomundo.com.br/denuncias/beatriz-cerqueira-o-que-acontecera-aos-trabalhadores-no-dia-seguinte-ao-golpe-de-temer-congresso-patronal-e-entreguista-fiesp.html]. Além disso, os fascistas mirins que convocam as manifestações de rua pelo golpe são bastante explícitos no seu ataque à legislação trabalhista, aos programas de combate à pobreza e redistribuição de renda, à saúde e educação públicas, etc.

4. Creio que há uma lista bem grande de coisas que o governo federal fez, e às quais me oponho. Posso citar a estúpida lei terrorista recentemente sancionada, os cortes brutais em investimentos na educação, saúde e ciência para pagar juros ilegais da dívida pública, o veto à auditoria da dívida pública, a paralização da reforma agrária, ceder à bancada de pastores mafiosos que se autointitula “evangélica” para cancelar programas específicos de educação e saúde, etc. A lista grande. Mas o argumento não é atrapalhado por isso: não se pede impeachment por simplesmente discordar de decisões do governo eleito, e com certeza um governo pós-golpe, chefiado por Temer ou Cunha, não trará nenhuma melhoria. Pelo contrário, as propostas que Cunha tentou emplacar no Congresso (terceirização geral, combateu o Marco Civil, etc) e o que Temer está propondo abertamente são terríveis para as classes populares.

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